Grimório – Tomo I

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Para aqueles que acompanham este site há algum tempo esta matéria pode parecer um repeteco, pois este artigo já fora publicado anteriormente na antiga coluna “Café com os Mestres” e após reformulação retorna agora ao ZBCast sob o título de “Grimório”.

Os artigos aqui publicados tentarão esclarecer alguns pontos do universo do RPG, sob a perspectiva e experiência deste autor, a princípio espero incentivar jogadores e narradores “iniciantes”, ilustrando algumas situações interessantes deste hobby. Assim como algumas dicas para enriquecer ainda mais as aventuras de mesa, mas isto não quer dizer que há restrições ou um público especifico. Este espaço segue os preceitos deste site e, portanto está aberto para os comentários e participação de todos (as), assim como também propostas de temas, sugestões, dúvidas e críticas.

Como posso começar a jogar RPG?

Bem, esta é a dúvida que aflige todo aquele ou aquela que tem interesse ou curiosidade, mas nunca jogou RPG. Em 1998 quando comecei a jogar ainda não havia as facilidades que hoje a Internet nos oferece, tanto no que diz respeito ao acesso a informação sobre livros, materiais ou mesmo como uma ferramenta de encontro com outros jogadores em fóruns, blogs, etc. O que retrata a minha chegada até este momento.

Em primeiríssimo lugar não existe um jeito certo ou errado de se jogar, cada mesa tem suas características e os jogadores se divertem jogando a seu modo. Durante décadas o patriarca Dungeons & Dragons (D&D) se manteve priorizando a ação e a aventura, não quero dizer que não houvesse espaço nele para se contarem boas histórias, mas digamos que o foco ou a exigência de interpretação foi algo que foi sendo construído ao longo do tempo. Assim, em meados dos anos 90 a linha de produtos para Storyteller (Vampiro: A Máscara, Lobisomem: O Apocalipse, etc) marcaram uma nova tendência dentro do Role-play, pois apresentava um sistema de regras relativamente simples, em especial para construção de personagens, mas que primava pela narração e a história em um cenário punk-gótico. Esta, porém a meu ver não foi nenhuma revolução, pois Mark Rein-Regan foram inteligentes em atender a mudança do mercado.

O RPG utiliza uma linguagem própria (regras, sistemas, cenários etc.) que inicialmente pode ser de difícil compreensão para os leigos, isto é um fato, mas isto não é uma barreira tão grande assim que não possa ser derrubada. Todo RPG utilizará um ¬sistema de regras para a solução das situações de conflito, porque no geral o Narrador não poderia decidir sozinho o destino do Personagem Jogador (PJ, ou do inglês PC). Afinal de contas o Narrador não é um escritor e os Jogadores não é seu público fiel, todos são partes de uma história vivida. Portanto, uma forma aleatória (dentro de certas regras) geralmente determinar os sucessos e falhas em uma atividade, seja intelectual, física ou de interação social.

Daí os sistemas utilizam dados (a grande maioria), cartas, cronômetros, ou outro meio apropriado que segue uma progressão matemática ou simplesmente sorte. Todavia nosso jogo de interpretação não é uma competição, muito pelo contrário, todo RPG somente pode ter seu funcionamento quando há cooperação dos jogadores para a resolução de uma trama.

Esclarecidos estes pontos basta a qualquer interessado (a) procure em sua cidade por outros jogadores ou mesmo ele próprio reunir seu grupo de amigos para começar a jogar. Nunca conheci um jogador ou grupo autoditada, esta não é uma regra, mas tradicionalmente sempre há um jogador mais experiente e com iniciativa para ser o Narrador ou “Mestre”. Com um livro básico de regras a mão e um grupo de jogadores (que deve variar de três a seis pessoas) o primeiro passo pode ser a escolha de uma aventura pronta, muitas vezes disponível no livro escolhido, ou então, o Mestre pode contar uma estória de autoria própria.

No caso de jogadores que nunca jogaram recomendo o uso de personagens prontos, construído previamente pelo Mestre para a aventura ou mesmo já disponíveis no livro básico ou em seus suplementos. Pode-se deixar para um segundo momento quando os participantes estejam mais familiarizados com a mecânica do jogo, para então criarem seus próprios personagens.

Não excluo a possibilidade de criação própria logo de saída, mas esta pode ser uma tarefa muito maçante, pois um(a) novato(a) não estará necessariamente preocupado (a) com estatísticas, planilhas e tabelas, muito pelo contrário ele ou ela tem maior curiosidade em saber como é e qual é a sensação de uma sessão de jogo.

Para onde vai o RPG?

Saudações sobreviventes da ZBC!

“O jogo é uma atividade ou ocupação voluntária, exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e de espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e de alegria e de uma consciência de ser diferente da vida quotidiana”.

(Johan Huizinga)

Já faz anos que escuto que o RPG está morrendo. E de tanto ouvir, muitos estão acreditando. É certo que o RPG não é um negocio rentável, como bem explicou Carlos Klimick (ouça em ZBCast 027). Mas tenho uma opinião bem diferente, digo que o RPG não morrerá…

O conceito moderno de RPG (Role Playing-Game) nasceu em 1974, com Dungeons & Dragons, denominado Roleplaying-Game. Em seu inicio, o D&D não foi mais do que um war game um pouco diferente: onde se dirigia exércitos napoleônicos ou medievais se enfrentando uns aos outros, mas com a particularidade de que cada jogador conduzia um único personagem. E é essa particularidade que é o “Roleplaying-Game” e não apenas mais um war game.

Essa é uma ideia poderosa, algo que fizemos durante toda a vida. As crianças aprendem imitando os pais (o que Albert Bandura chamava de aprendizagem social), depois elas aprendem qual é seu papel dentro da sociedade por meio dos jogos de faz de conta (o Ócio Criativo de Domenico de Masi).  O próprio ato de contar historias é algo que fazemos desde as sociedades primitivas, assim como a imaginação é algo que está presente desde os primeiros dias de nascimento, como bem salientou Freud em “Formulações sobre os dois princípios do fundamento mental”.

Portanto, o RPG tem em seu favor algo muito importante: o conceito é algo simples de entender, porque todos nos desde pequenos já éramos role players. Quando “D&D” foi lançado, ele rapidamente começou a se popularizar, porque era uma evolução dos war games: sendo mais fácil de identificar-se com um indivíduo (mesmo quando eram pequenas criaturas de pés peludo que gostam de comer) do que com um exercito. O crescimento do “D&D” deu lugar a novos RPGs: “Runequest”, “Tunnels & Trolls”, “Traveller”, “Empire of The Petal throne”, “En Garde!”, “Boot Hill”, “Metamorphosis Alpha”, “Champions”, “Hero System”, e muitos outros.

Durante anos, este conceito seguiu expandindo e alimentando os jogadores de war games e os fãs de fantasia e de ficção científica. Mas aos poucos, apareceram dezenas de jogos, com dezenas de suplementos, ampliações de regras e aventuras prontas. Hoje pode-se nomear 500 coleções de RPGs, se falarmos apenas dos que estão em inglês, sem contar o mercado espanhol, francês e alemão ou de jogos próprios lançados na web, além é claro dos RPGs nacionais!

Durante todo esse tempo, o RPG passou por mudanças, sofreu crises e criou suas próprias variações. Fomos do “D&D” ao “Vampiro”, quando o jogos deixaram os war games e passaram a ser jogos narrativos! Não se pode negar a expansão da ideia. Claro que não é algo como na década de 90, onde o RPG no Brasil passou de um jogo oculto para Cult, um fenômeno causado por “Vampiro: A Máscara”, pelo nascimento dos “lives action”, onde se encontravam grupos de jogadores e propagandas de livros de RPG em revistas.

Entretanto, ainda hoje, o conceito persiste. Quando se diz que o RPG está morrendo, eu creio que são as grandes editoras de RPG que estão morrendo. Que o jogos de tabuleiro, o Xbox /Playstation, os MMORPG e o que mais inventarem, não acabarão com o RPG.

Ainda seguiremos aqui!

A indústria de RPG é desnecessária para jogar RPG. Não necessitamos de programadores como os videogames, não necessitamos de caixas e fichas de cartão como os war games, não necessitamos de uma conexão para internet e não necessitamos nem de eletricidade. O RPG necessita apenas de algumas regras, de um grupo e de imaginação.

E graças à internet podemos encontrar muitos RPGs distribuídos gratuitamente de forma legal. E caso não exista mais nenhuma editora de RPG no Brasil, pode-se encontrar grupos de tradução e de jogo, além é claro dos muitos blogs e fóruns sobre o mesmo, que simplesmente substituem com maestria as antigas revistas. Mesmo depois do dia em que a última editora feche e se converta em uma empresa de videogames ou de jogos de tabuleiro, o RPG continuará existindo e se expandindo, seja como um sistema caseiro ou como um eBook. Nascendo uma nova geração de RPGistas… Ou um retorno as raízes do surgimento do RPG no Brasil.

O RPG como um conceito é indestrutível e nunca terá fim, pelo menos enquanto houver imaginação e enquanto rolem os dados.

 

Novidades de Tagmar

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Olá a todos os Tagmarianos,

Este é o nosso primeiro informativo de 2011. Estes dois últimos meses, ao contrário do esperado foram bem mornos com poucas novidades, mas trago boas notícias as quais vão agitar bem este inicio de ano:

1) Iremos lançar no dia 21/2 (próxima 2ª feira!) a nossa TagmarPedia. Para quem ainda não sabe, será uma grande novidade no projeto. A TagmarPedia vem com 2 grandes objetivos:

a) Disponibilizar o material oficial do Tagmar de forma online no formato Wiki, o que permitirá uma consulta mais interativa de todo conteúdo dos diversos livros do Tagmar 2.

b) Possibilitar uma maior interatividade, disponibilizando material extraoficial 100% colaborativos, que não necessitam pedir autorização e nem mesmo mandar emails, é só entrar escrever. Crie, edite, altere, complemente. De asas a sua imaginação!

OBS: o material oficial não está disponível para edição, apenas a parte de não oficial está disponível para edição/criação.

E para iniciar já temos 3 livros oficias incluídos e 2 livros não oficias já iniciados e prontos para receberem colaboração. A TagmarPedia já pode ser acessa pelo nosso menu lateral ou pelo seguinte link, mas até o dia 21/2 nenhum verbete poderá ser editado. Aguardem então até a data do lançamento…

2) O livro do império está quase pronto com boa parte dos textos já votados. Há algumas votações em aberto. Convidamos os Heróis do Tagmar 2 a participar da votação.

3) O Livro dos Deuses e Demônios está quase no fim. Para podermos finalizar vamos primeiro fechar o item dos símbolos que se não forem definidos impedirão o fechamento de todos os textos. Visite o fórum e  participem.

4) Livro de Criaturas: Todo nosso livro já foi fechado e iremos agora lançá-lo. Como todas as criaturas já foram digitadas no nosso “Criaturas Online”, o Livro de Criaturas 2.3 será então primeiro disponibilizado através da nossa TagmarPedia, para depois ser lançado em formato PDF.
6) Por último, queria comunicar que nosso coordenador de regras irá agora finalizar os tópicos do “Livro das Magias Perdidas”. Participem das últimas discussões deste livro em Tagmar 2.

Saudações a todos,

Marcelo Rodrigues
Coordenador do Projeto Tagmar

 

Primeiros Passos

Saudações sobreviventes da ZBC!

Por qual RPG devo começar? Deve-se começar por aquilo que faz sentido para você. Se você curte HQs? Então comece por GURPS Supers! Mas se você preferir histórias de terror? Não tem problema, use GURPS Horror… O que quero dizer e que não importa o que você queira jogar, GURPS sempre é o melhor sistema, já que com o módulo básico você pode criar qualquer ambientação de jogo! Entretanto, este artigo não tem pretensão de ser uma propaganda de GURPS, mas de aconselhar os novos jogadores de RPG com dicas.

Por onde inicio?

Vamos supor que você já conheça o que é RPG, o que é a ficha de personagem, que função tem o mestre e essas coisas básicas. A maioria de vocês talvez já tenha visto alguma sessão de jogo ou acessado algum fórum sobre RPG. Então, surge à primeira pergunta: Que livro eu compro para começar?

A resposta é simples: nenhum livro. Isso mesmo, não compre nenhum livro de inicio. Procure primeiro localizar algum grupo de RPG e jogue com eles! Agora, caso não tenha nenhum grupo na cidade onde você mora, aí então caberá a você formar o seu grupo. Nesse caso, existem muitas opções. Jogar RPG, como qualquer outro jogo de mesa requer apenas um conjunto de regras, que você pode obter procurando na internet por RPGs gratuitos (Phantasia RPG, etc.), imprimir e jogar sem que te custe um centavo.

A partir daí, já é questão de quanto esta disposto a gastar. Podem-se adquirir livros básicos de RPG por R$ 70,00, inclusive por menos se você o comprar de segunda mão. Um bom conselho que lhe dou é o seguinte: o caro nem sempre é o melhor, assim como os mais jogados tampouco o são… Por exemplo: Era do Caos é uma ambientação excelente, mas o sistema nacional de maior sucesso é a Daemon; Tormenta fez um sucesso absurdo, entretanto Tagmar é grátis e de qualidade muito superior; etc.

Outro conselho importante é que há RPGs que precisam de mais livros para ser jogados, por exemplo: Dungeons & Dragons, o inicio de muitos RPGistas. Entretanto, num grupo onde todos os jogadores são principiantes, será um esforço terrível ler dois ou três livros de 300 páginas antes de jogar. A ideia é dar uma primeira boa impressão do RPG, e para isso, insisto que se deve iniciar com algo que não polua a mesa e tenha tudo que seja necessário para começar a jogar.  Um outro ponto importante é a ambientação do jogo. Não adianta nada levar um RPG de Fantasia medieval para um grupo que curte horror cósmico. Então qual sistema?

Qual sistema?

Sem dúvida, o sistema é algo muito importante, não conhecê-lo bem pode atrasar e dificultar a experiência, inclusive fazendo com que pessoas não gostem ou apreciem a experiência de jogar RPG. Segue dois conselhos:

O primeiro, escolha as regras que irá utilizar (principalmente se estivermos falando de GURPS), faça uma versão ‘Lite’. É mais cômodo por que reduz em muito o tempo que irá utilizar para explicar e ensinar os demais jogadores, assim pode-se passar para o que é realmente divertido: interpretar o personagem.

O segundo conselho é o mais importante. As regras não são uma parte necessária de um jogo de RPG. Este se trata apenas de interpretar. Se não gosta de uma determinada regra, ignore-a; se a regra é muito complicada, modifique-a! Haverá tempo no futuro para ir aprendendo as regras do sistema, você não precisa passar o dia tentando descobrir como se aplica a mesma.

Há muitas pessoas que dizem ter jogado RPG e que não gostaram, mas estas tiveram com certeza uma experiência ruim em seu inicio. Quando você for um jogador veterano, perceberá que nem os mestres mais velhos usam todas as regras, e que muitas vezes mudam-nas para se adequar ao seu estilo.

Uma pequena lista

Em resumo: não há uma lista de RPGs definitiva para formar um grupo de iniciantes. Não existe um jogo que funcione com 100% de certeza para todos os grupos, por exemplo: 3D&T ajudou a formar muitos jogadores de RPG no Brasil, mas em meu grupo é tido como um sistema ruim (para não falar uns palavrões aqui). Preparei uma pequena lista de exemplos de RPGs interessantes (alguns nunca tiveram versão tupiniquim):

  • O Chamado de Cthulhu e o Rastro de Cthulhu – O primeiro dele é um grande clássico, o segundo é uma celebrada e recente incorporação. O Rastro de Cthulhu tem versão em português. Ambos os jogos estão ambientados nos contos de H. P. Lovecraft.
  • Mundo das Trevas (2004) – Ambientação genérica com um sistema simples e narrativo, que quer dizer que prima pela interpretação. Recomendável para principiantes, pois nos situa em um mundo muito parecido ao nosso, mas com algumas diferenças. Pode ser jogado independente das outras ambientações e suplementos.
  • Battlestar Galáctica e Serenity (Firefly) RPG – Não possui versão em português, mas por ser RPGs baseados em series de TV facilitaria a compreensão visual da ambientação, além de possuir um sistema de fácil entendimento. Com eles, você poderá emular os seu personagem favorito, talvez criar outras tramas e reescrever a historia.
  • O Senhor dos Anéis (CODA) – Não é a mais aclamada, mas esta versão do celebre livro de Tolkien é um bom ponto de partida para o inicio no RPG, já que apresenta uma das ambientações mais clássicas dos jogos de RPG, com um sistema muito simplificado e com boas explicações. Altamente recomendável.

Espero que este pequeno guia te sirva de ajuda. E aqui no ZBCast você poderá saber a respeito de outros sistemas, de dicas para jogadores por meio do podcast ou das colunas. Lembre-se da regra de ouro: se algo não lhe serve, mude-o!

E que rolem os dados!