Para onde vai o RPG?

Saudações sobreviventes da ZBC!

“O jogo é uma atividade ou ocupação voluntária, exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e de espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e de alegria e de uma consciência de ser diferente da vida quotidiana”.

(Johan Huizinga)

Já faz anos que escuto que o RPG está morrendo. E de tanto ouvir, muitos estão acreditando. É certo que o RPG não é um negocio rentável, como bem explicou Carlos Klimick (ouça em ZBCast 027). Mas tenho uma opinião bem diferente, digo que o RPG não morrerá…

O conceito moderno de RPG (Role Playing-Game) nasceu em 1974, com Dungeons & Dragons, denominado Roleplaying-Game. Em seu inicio, o D&D não foi mais do que um war game um pouco diferente: onde se dirigia exércitos napoleônicos ou medievais se enfrentando uns aos outros, mas com a particularidade de que cada jogador conduzia um único personagem. E é essa particularidade que é o “Roleplaying-Game” e não apenas mais um war game.

Essa é uma ideia poderosa, algo que fizemos durante toda a vida. As crianças aprendem imitando os pais (o que Albert Bandura chamava de aprendizagem social), depois elas aprendem qual é seu papel dentro da sociedade por meio dos jogos de faz de conta (o Ócio Criativo de Domenico de Masi).  O próprio ato de contar historias é algo que fazemos desde as sociedades primitivas, assim como a imaginação é algo que está presente desde os primeiros dias de nascimento, como bem salientou Freud em “Formulações sobre os dois princípios do fundamento mental”.

Portanto, o RPG tem em seu favor algo muito importante: o conceito é algo simples de entender, porque todos nos desde pequenos já éramos role players. Quando “D&D” foi lançado, ele rapidamente começou a se popularizar, porque era uma evolução dos war games: sendo mais fácil de identificar-se com um indivíduo (mesmo quando eram pequenas criaturas de pés peludo que gostam de comer) do que com um exercito. O crescimento do “D&D” deu lugar a novos RPGs: “Runequest”, “Tunnels & Trolls”, “Traveller”, “Empire of The Petal throne”, “En Garde!”, “Boot Hill”, “Metamorphosis Alpha”, “Champions”, “Hero System”, e muitos outros.

Durante anos, este conceito seguiu expandindo e alimentando os jogadores de war games e os fãs de fantasia e de ficção científica. Mas aos poucos, apareceram dezenas de jogos, com dezenas de suplementos, ampliações de regras e aventuras prontas. Hoje pode-se nomear 500 coleções de RPGs, se falarmos apenas dos que estão em inglês, sem contar o mercado espanhol, francês e alemão ou de jogos próprios lançados na web, além é claro dos RPGs nacionais!

Durante todo esse tempo, o RPG passou por mudanças, sofreu crises e criou suas próprias variações. Fomos do “D&D” ao “Vampiro”, quando o jogos deixaram os war games e passaram a ser jogos narrativos! Não se pode negar a expansão da ideia. Claro que não é algo como na década de 90, onde o RPG no Brasil passou de um jogo oculto para Cult, um fenômeno causado por “Vampiro: A Máscara”, pelo nascimento dos “lives action”, onde se encontravam grupos de jogadores e propagandas de livros de RPG em revistas.

Entretanto, ainda hoje, o conceito persiste. Quando se diz que o RPG está morrendo, eu creio que são as grandes editoras de RPG que estão morrendo. Que o jogos de tabuleiro, o Xbox /Playstation, os MMORPG e o que mais inventarem, não acabarão com o RPG.

Ainda seguiremos aqui!

A indústria de RPG é desnecessária para jogar RPG. Não necessitamos de programadores como os videogames, não necessitamos de caixas e fichas de cartão como os war games, não necessitamos de uma conexão para internet e não necessitamos nem de eletricidade. O RPG necessita apenas de algumas regras, de um grupo e de imaginação.

E graças à internet podemos encontrar muitos RPGs distribuídos gratuitamente de forma legal. E caso não exista mais nenhuma editora de RPG no Brasil, pode-se encontrar grupos de tradução e de jogo, além é claro dos muitos blogs e fóruns sobre o mesmo, que simplesmente substituem com maestria as antigas revistas. Mesmo depois do dia em que a última editora feche e se converta em uma empresa de videogames ou de jogos de tabuleiro, o RPG continuará existindo e se expandindo, seja como um sistema caseiro ou como um eBook. Nascendo uma nova geração de RPGistas… Ou um retorno as raízes do surgimento do RPG no Brasil.

O RPG como um conceito é indestrutível e nunca terá fim, pelo menos enquanto houver imaginação e enquanto rolem os dados.

 

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