Unhallowed Metropolis

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“No ano de 1905 a humanidade estava no pináculo de sua civilização… E por humanidade me refiro a Inglaterra, claro. O período Vitoriano havia puxado grandes avanços em quase todos os campos desde a política social até a tecnologia passando pela arte, a medicina e a arquitetura. Alguns acreditavam que não havia nada mais a descobrir, que a humanidade havia alcançado seu limite… Mas eu acredito que podíamos haver chegado muito mais distante… Se não houvesse existido a Praga.”

Saudações sobreviventes da ZBC! Este pequeno parágrafo nos serve de apresentação ao RPG que vamos a comentar hoje. Unhallowed Metropolis, publicado pela editora Eos Press. Apesar do jogo não ser muito conhecido, este veio juntamente com a moda de apocalipse zumbi com qual estamos sofrendo.

Ambientação

O jogo nos apresenta um mundo similar ao nosso, mas ambientado no ano 2105 após um apocalipse. Trata-se basicamente de uma ucronia que se dissocia do nosso histórico a partir de 1905 quando de repente e sem aviso algum uma estranha praga se espalha pelo mundo. Em poucos meses 70% da população mundial morre por causas dos zumbis e por enfermidades posteriores. Os humanos sobreviventes se escondem em cidades afastadas dos mortos-vivos. Durante anos a humanidade se conforma apenas com sobreviver.

Entretanto, pouco a pouco os sobreviventes britânicos (o jogo está centrado na Grã-Bretanha e concretamente em Londres) se organizam ao redor do exercito. Começam a limpar e assegurar pontos estratégicos. Inicia-se a reconquista dos vivos. Pouco a pouco se asseguram lugares maiores e finalmente a cidade inteira. O processo dura anos, até a reconquista de Londres. Os novos cidadãos se dedicam a reconstruir e fortificar as cidades. Reinstala-se o governo do Reino Unido e a civilização volta a avançar. Com o tempo, as cidades voltam a crescer, a ciência e a sociedade retomam seus avanços a partir de onde pararam ao fim do período vitoriano. Entretanto, a Praga esta longe de desaparecer.

Seja bem vindo ao século XXII. Coloque bem as máscaras anti-gás e escolha uma boa arma. Se alguém estranho for em sua direção: atire, queime-o e depois pergunte!

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A atualidade e suas misérias

O jogo está pensado para transcorrer em Londres de 2105. A cidade é uma enorme metrópole densamente povoada e dividida em bairros. Em Londres pode-se encontrar gente de todos os tipos sociais, desde famílias de trabalhadores que vivem nas misérias e imundície até as classes endinheiradas da aristocracia que vive alienado dos problemas do mundo que o rodeia.

Por motivos óbvios a lei exige que todos os mortos sejam cremados e para isso se dispõe de equipamentos que percorrem a cidade para recolher os mortos e levá-los aos inúmeros crematórios que existem na cidade. Como se compreende, Londres é uma cidade extremadamente contaminada e por isso, todos desde os mais pobres aos mais ricos possuem uma máscara para filtrar o ar.

A cidade possui muralhas altas que garantem uma cidade segura. Não só há ocasionais efeitos da Praga que resultam em dezenas de mortos-vivos, no entanto, existem outras criaturas, algumas bastante humanas, se escondem nas sombras da maior cidade do mundo. Há por exemplo: vampiros, ghouls… e um tipo de seres humanos nascidos de forma anti-natural e carente de qualquer conceito moral ou consciência.

Por sorte não são poucos os heróis que lutam contra todas estas presenças, desde a própria policia metropolitana até a Deathwatch (setor do exército que luta contra os mortos-vivos) passando pelas Mourners (ordem de mulheres que velam os corpos dos aristocratas antes de enterrá-los para assegurar que não retornem) ou os Undertakers (caçadores de recompensas capazes de enfrentar os mortos em troca de dinheiro). Ademais os admirados e temidos Dhampir, humanos com a maldição do vampirismo, mas que não estão mortos e são capazes de grandes gestos graças aos poderes que seu sangue lhes outorga…

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Sistema de jogo

Unhallowed Metropolis tem um sistema de jogo simples, até mais intuitivo que o Storyteller System. Usam-se dois únicos d10 e as jogadas consistem em rolar ambos os d10s, somar o correspondente atributo ou habilidade e compará-lo com a dificuldade estipulada pelo narrador.

O combate é também simples, realiza-se a correspondente jogada de ataque contra uma dificuldade determinada. Se a jogada sobrepõe à dificuldade, o ataque é efetuado com sucesso. Para defender-se de forma ativa de um ataque pode-se fazer um bloqueio ou esquiva (jogada de 2d10 + habilidade contra a jogada de ataque) o qual tem como custo a perda da ação seguinte do personagem ou pode-se declarar que o personagem faz uma manobra evasiva o que aumenta a dificuldade para ser acertado durante todo o turno, mas o impede de fazer qualquer ação. O dano é simplesmente 2d10 + arma empregada.

Talvez a maior graça do sistema de jogo seja o sistema de Corrupção e suas mecânicas associadas. Basicamente o sistema supõe que todos os personagens deste mundo vão corrompendo-se conforme se enfrenta os desafios que esta tenebrosa realidade coloca em seu caminho. A corrupção pode ser Física (corrupção do corpo), do Desejo (as obsessões do personagem crescem e se tornam cada vez mais bizarras) ou de Conduta (o personagem é cada vez capaz dos piores coisas para alcançar seus fins). Cada ponto que se ganha em uma das três áreas de corrupção outorga uma Aflição (uma série de defeitos relacionados com a corrupção adquirida) que pode ir agravando-se.

A graça deste sistema de corrupção é o que em outros jogos se chamariam de pontos heroicos ou de ‘destino’, aqui existem as chamadas “Segundas Oportunidades” (Second Chances) que são exatamente isso, oportunidades de repetir uma jogada de dados que você tenha feito ou que tenham feito contra você. Cada jogador tem tantas Segundas Oportunidades quanto seu nível mais alto de uma das áreas de corrupção (sim, quanto mais corrupto você esteja mais segundas oportunidades você tem) e se você não tiver mais segundas oportunidades… Só tem que aceitar mais um ponto de corrupção para obter outra chance.

Além das Segundas Oportunidades existe outra mecânica que pode salvar a vida dos personagens. Trata-se da “Sorte do Diabo” (Devil’s Luck) e consiste em que uma vez por partida cada jogador pode invocar a sorte do diabo para salvar seu personagem de uma morte certa. O narrador então está obrigado a modificar a situação para que o personagem não morra, mas o personagem só pode invocar a sorte do diabo uma única vez por partida e deste momento em diante não pode fazer uso de nenhuma Segunda Oportunidade até que termine a partida.

O sistema de criação de personagens é também simples, basicamente consistem em repartir uns poucos pontos entre os atributos, escolher um Calling (uma planilha de classe: Aristocrata, Criminoso, Dhampir, Doutor, Mourner, Undertaker, ou “customizada”) que determinará as habilidades iniciais, a situação econômica inicial e talvez algumas regras especiais (como no caso dos Dhampir que tem certas vantagens e inconvenientes “sobrenaturais”), logo escolher a área de Corrupção e Aflição inicial, por fim, repartir alguns pontos extras entre habilidades e uma sorte de méritos e defeitos. A mecânica é simples como se pode ver e um personagem é criado em poucos minutos.

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Conclusões

O livro possui 392 páginas em branco e preto, com formatação vistosa e imersiva sem ser estafante para ler, com muitas ilustrações e fotografias retocadas para manter a ambientação, livro de cada dura colorida. Unhallowed Metropolis é sem dúvida um bom jogo. A ambientação é original, bem desenvolvida e coerente, sendo crível, além de que a quantidade de detalhes das criaturas e monstros não faz nada a não ser reforçar esta sensação. As regras são simples e nada intrusivas deixando fluir a narração sem incomodar. A mecânica das Segundas Oportunidades e da corrupção é curiosa e lhe dá sem dúvidas um pouco mais de graça ao jogo.